quinta-feira, 24 de maio de 2018

A greve dos caminhoneiros são os vinte centavos do governo Temer


A paralisação dos caminhoneiros entra em seu quarto dia e faz um estrago que não era esperado nem por eles, caminhoneiros. Aliás, o gatilho desta greve não é a classe ou o sindicato: é um movimento patronal - não são caminhões de frete, mas caminhões de transportadoras.

Até aí, tudo bem. Todos já sabemos das cartas marcadas que grassam pelo Brasil pós golpe. Mas o Imponderável de Almeida (primo do Sobrenatural de Almeida, afilhado do Nelson Rodrigues) resolveu aparecer na cena política nacional de novo. E, dessa vez, ele veio com tudo (com Supremo, com tudo).

Essa paralisação meio fake, meio pelega, é a re-edição dos 20 centavos pré Copa das Confederações: um movimento meio besta que foi aproveitado pela imprensa golpista para exterminar a popularidade do governo Dilma, que já vinha baixa.

A senha para aquele movimento meia-boca virar nacional foi o espancamento de manifestantes na Avenida Paulista pela polícia militar de Geraldo Alckmin. A partir dali, a indignação foi tanta que a classe média sempre acovardada resolveu sair da toca e brincar de depredação de grife (lembram dos playboys tatuados apedrejando as vidraças do Congresso Nacional?).

Semelhanças à parte, a greve dos caminhoneiros não esperava tamanho ‘sucesso’, vamos dizer assim. O que importa aqui – o que é o similar histórico ao ‘espancamento da PM da greve dos caminhoneiros’, estopim para catarse popular em torno de uma causa difusa – é justamente o imponderável: a péssima gestão de crise do governo golpista. 

terça-feira, 27 de março de 2018

A morte do fato, por Gustavo Conde

"Contra fatos não tem argumentos". Eu ando meio injuriado com essas expressões populares. Elas são motores violentos de perpetuação de poder, enunciados saídos diretamente da opressão, do esmagamento, da subserviência, da conformidade, da paralisia.

Pergunte a algum acionista de bolsa de valores se ele acredita nessa premissa. Ele lida exatamente com seu contrário. Porque ele sabe que os mercados oscilam ao sabor dos argumentos dispersos mundo afora. Uma fala mal formulada de um ministro pode fazer as ações de uma gigante do petróleo perderem 40% de seu valor num único dia. E aí? Quem determina quem, o fato o argumento ou o argumento o fato?

Calculem o que é uma expressão popular que atravessa os séculos - e que portanto foi espontaneamente formulada por uma sociedade de 200 anos atrás, mais ou menos. Não pode ser portadora de alguma "verdade", senão por sintoma. Ou: são ditos que visam preservar o controle de quem já controla, com imenso viés patrimonialista.

É a mesma função das histórias infantis ou das fábulas. João e Maria se perdem na Floresta e uma bruxa quase os devora. Portanto, "não saiam na floresta, crianças". As histórias infantis são até mais sofisticadas. Os adultos, séculos afora e adentro, fazem um papel muito mais passivo e dócil diante das narrativas de controle social. Uma criança - graças a Deus - ainda sai na floresta. Ela tem algo dentro de si chamado "curiosidade".